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A dança dos criativos: o que está por trás das trocas nas grandes maisons

Por Paula Giacomoni Bragagnolo

As recentes trocas de diretores criativos nas grandes maisons de luxo não são apenas movimentações internas de um setor específico. Elas funcionam como indicadores estratégicos do mercado estético global, com impactos que reverberam do comportamento de consumo à vitrine da sua loja — mesmo que você não atue diretamente com moda.

Se você é arquiteto, designer de interiores, lojista, dono de marca ou até uma ótica que se posiciona como premium, essa dança importa. Porque o luxo ainda dita padrões simbólicos e estéticos que contaminam todos os setores criativos.

Criadores como catalisadores culturais

Diretores criativos de marcas como Gucci, Balenciaga, Dior ou Valentino são mais do que estilistas. São curadores de futuro. Quando um nome como Demna, Alessandro Michele, Pierpaolo Piccioli ou Jonathan Anderson assume uma casa, ele não apenas cria roupas. Ele reposiciona valores, ativa novas linguagens visuais e redefine o que significa “ser desejável” naquela geração.

Alessandro Michele, por exemplo, transformou a Gucci de uma marca clássica em um fenômeno maximalista e pop, conectando códigos de ironia, nostalgia e gênero fluido com uma geração que se via pouco nas tradições do luxo. Quando ele sai, e entra Sabato De Sarno com uma proposta mais elegante e silenciosa, todo o mercado sente. Do styling de campanhas até o jeito que vitrines são montadas em lojas multimarcas.

E agora, ao migrar para Valentino, Michele imprime sua marca em outra etiqueta — que até então era sinônimo de uma estética colorida, solar e refinada sob a direção de Piccioli. Em paralelo, Piccioli assume a Balenciaga, numa tentativa de recuperar o legado do próprio Cristóbal e afastar a marca das polêmicas da era Demna, que por sua vez segue para a Gucci. É quase um jogo de xadrez simbólico.

Estética como ativo estratégico

Cada troca carrega consigo novas apostas de linguagem e posicionamento. É como se a marca dissesse: “A partir de agora, queremos ser percebidos assim”. No caso de Jonathan Anderson, que revitalizou a Loewe e fez dela a marca número 1 no ranking The Lyst, o rumor de sua possível entrada na Dior sinaliza uma busca por sofisticação autoral e alta performance criativa. Não por acaso, Dior parece estar à procura de uma reinterpretação estética e comportamental que recoloque a maison no centro da conversa cultural.

Esses movimentos são semelhantes à lógica da bolsa de valores. Mudam o valor simbólico das marcas, impactam comportamento de compra e geram tendências secundárias que contaminam o design de produto, arquitetura comercial, marketing e cultura visual.

Por que isso importa para além da moda?

Porque essas marcas não criam apenas roupas. Elas criam imaginário. Linguagem. Referência.
Quando um novo nome assume uma maison, ele reposiciona valores, propósitos e símbolos. Ele redefine o que é considerado contemporâneo. E isso respinga em toda a cadeia criativa — da arquitetura ao design de interiores, do varejo ao marketing, da comunicação à consultoria de imagem.

Para profissionais de marketing: saber o que é hype (e por quê)

Quem trabalha com branding, conteúdo, publicidade ou estratégia digital precisa entender que as grandes maisons ainda ditam o tom do que será viral, cool ou desejável.
Quando uma Gucci muda de direção criativa, a mudança não se limita às passarelas: ela reverbera nos filtros do Instagram, nos editoriais de revistas, no comportamento aspiracional de consumo — e, principalmente, nos formatos de campanha.

Exemplo prático: Demna, na Balenciaga, criou campanhas com estética agressiva, underground e altamente polêmica. Seus produtos — de tênis destruídos a bolsas que imitam sacolas de supermercado — geraram ondas de memes, debates e cópias. Toda a cultura pop falou sobre isso. E, mesmo na crítica, o engajamento foi absoluto.

Profissionais de marketing atentos sabem identificar o timing do hype, compreender a lógica estética por trás dele e traduzir isso em conteúdo com autoridade e profundidade.
É o que diferencia marcas rasas de marcas culturalmente relevantes.

Para consultores de posicionamento: marca pessoal e DNA da empresa

As recentes trocas mostram que um diretor criativo é mais do que um executor — ele é um símbolo.
A presença de Michele na Gucci, por exemplo, era a Gucci. Sua saída foi sentida como uma mudança de alma.
Sua chegada na Valentino já reposiciona a etiqueta como mais maximalista, afetiva e irônica — distanciando-se da elegância solar que era característica da era Piccioli.

Para quem trabalha com posicionamento de marca, estes são verdadeiros estudos de caso sobre como a personalidade de um criador pode influenciar radicalmente a percepção de uma marca global.
A interseção entre o criador e o criado revela o quanto a coerência simbólica é vital.

Aprender com esses movimentos permite que profissionais criem narrativas mais alinhadas, fortaleçam a marca pessoal e institucional e tomem decisões mais precisas sobre tom, estética e timing.

Para consultores de imagem: traduzir estética em estratégia

O papel da consultoria de imagem vai além de combinar cores e formatos. Ele envolve identificar códigos de pertencimento, traduzir o momento cultural e alinhar imagem pessoal à percepção externa.

E para isso, entender os shifts das grandes maisons é essencial.

Exemplo: a entrada de Sabato De Sarno na Gucci trouxe uma nova estética — minimalista, elegante, discreta. Para o público que se acostumou ao exagero visual de Michele, isso é uma virada.
Quem presta consultoria de imagem precisa saber interpretar esses sinais: o que essa nova estética comunica? Que tipo de cliente vai se identificar com ela? Qual arquétipo está sendo ativado? E o que isso significa para as escolhas de marca, estilo e linguagem pessoal?

Estar atento a esses movimentos é entender quando uma marca deixa de conversar com determinado público e passa a atrair outro. Isso guia decisões conscientes sobre consumo simbólico e construção de identidade.

No fundo, estamos falando sobre leitura de futuro

Na PGB, costumamos dizer que entender a dança dos criativos é como ler o mercado de ações do design.
Cada troca sinaliza:

– Quais valores estão sendo resgatados ou abandonados;
– Qual estética vai guiar o próximo ciclo de consumo;
– Quais marcas estão apostando em viralização, resgate, luxo silencioso ou ousadia performática. 

Isso tudo muda o modo como o consumidor se comporta.
Muda o que se deseja, o que se valoriza e o que se rejeita.

Em resumo:

A dança das cadeiras da moda é um mapa simbólico do presente — e uma janela para o futuro.
Se você trabalha com marcas, estética, comunicação ou consumo, precisa acompanhar isso de perto.

Porque aquilo que começa com a saída de um diretor criativo pode ser a fagulha que define o seu próximo projeto, produto ou posicionamento.Estética não é só beleza. É estratégia cultural.

E você? Já tinha percebido como essas movimentações te impactam?

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