Reconhecida como o principal ponto de encontro mundial do setor, a NRF Retail’s Big Show consolidou-se ao longo de mais de um século como a maior e mais influente feira de varejo do planeta. Organizado pela National Retail Federation, o evento nasceu nos Estados Unidos com o propósito de reunir líderes, executivos e especialistas para debater tendências, desafios e caminhos estratégicos do comércio, evoluindo ao longo das décadas para um termômetro global das transformações do setor.

Em 2026, a feira voltou a ser sediada em Nova York, no tradicional Jacob K. Javits Convention Center, reunindo milhares de profissionais de diferentes países entre os dias 11 e 13 de janeiro. A edição manteve seu formato robusto, combinando uma extensa programação de palestras, painéis estratégicos, exposições de tecnologia e experiências práticas voltadas ao varejo físico e digital.

Destacam-se entre os temas mais aguardados a aplicação avançada da inteligência artificial, a integração entre canais, a otimização da cadeia de suprimentos, o uso estratégico de dados, a personalização da experiência do cliente e os novos modelos de eficiência operacional. A abertura do evento deixou claro que o varejo global alcançou um novo patamar: menos voltado a testes isolados e mais comprometido com decisões maduras, foco em performance e geração consistente de valor ao consumidor final. A tecnologia, antes tratada como promessa, passou a ocupar um papel central como ferramenta concreta de escala, produtividade e competitividade.

Autenticidade como motor de valor cultural e econômico

 A apresentação conduzida por Gabriela Castanho, Product Marketing Communications Lead LATAM do TikTok, com complementos operacionais de Nicolas Cabral, Client Solution Lead do TikTok Shop no Brasil, evidenciou uma transformação estrutural no modo como tendências emergem e se convertem em consumo. O case de um pequeno comércio do interior, impulsionado pela exposição orgânica na plataforma e responsável por um crescimento de 25% no faturamento, ilustrou como a autenticidade deixou de ser um atributo simbólico para se tornar um ativo econômico mensurável.

O ponto central destacado foi a inversão da lógica tradicional de mercado: hoje, a dinâmica cultural se antecipa à oferta. Produtos, comportamentos e desejos ganham relevância primeiro no ambiente social e só depois chegam ao varejo estruturado. Essa defasagem revela um espaço de pensamento estratégico para marcas capazes de escutar sinais culturais em tempo real e responder com velocidade operacional. Nesse contexto, a jornada de compra deixa de ser guiada pela busca racional por preço e passa a acontecer dentro de fluxos de atenção, entretenimento e identificação simbólica. Ainda que a tecnologia avance, a experiência permanece como eixo competitivo, sustentada por personalização, conveniência e integração fluida entre canais. Com isso, é possível destacar a aceleração da cultura como gatilho primário de demanda e a experiência como diferencial sustentável, mesmo em ambientes altamente tecnológicos.

Fonte: Starbucks.
Fonte: Starbucks.
Lojas Starbucks Reserve Roasteries em Chicago e Nova York estreiam o Let It Glow, uma nova experiência interativa. Fonte: Starbucks.

Inteligência artificial como camada estrutural do negócio

Nos debates do painel “Exhibitor Big Ideas”, a inteligência artificial foi posicionada não mais como um recurso periférico, mas como uma engrenagem central da operação varejista. A IA passa a sustentar decisões críticas de sortimento, precificação, logística e personalização, integrando-se ao núcleo estratégico das empresas. Com a mudança de paradigma, a lógica de projetos isolados deixa de ocupar o centro das decisões, dando lugar à centralidade de uma visão de infraestrutura inteligente, contínua e transversal.  

Essa abordagem redefine o papel da tecnologia, que deixa de ser um diferencial competitivo pontual e passa a atuar como base para eficiência sistêmica e escalabilidade sem aumento proporcional de custo. A maturidade do setor se expressa na forma como a IA é incorporada à governança, aos processos decisórios e à experiência do consumidor, criando coerência entre estratégia, operação e valor percebido.

Nike House of Innovation é o novo conceito de megaloja principal da Nike, que combina varejo físico e tecnologia imersiva para oferecer uma experiência de compra única e altamente personalizada. Fonte: Nike.

Tecnologia aplicada à resolução de problemas reais

Nessa edição os painéis reforçaram um consenso inequívoco: inovação sem direção estratégica tende a gerar frustração e desperdício de recursos. O foco migra para soluções tecnológicas que simplificam processos, reduzem custos e qualificam a experiência do consumidor.

A participação da Louis Vuitton exemplificou essa lógica ao demonstrar como a inteligência artificial pode ser incorporada ao universo do luxo de forma discreta e consistente com os valores da marca. No modelo apresentado, a tecnologia atua como suporte invisível à personalização em escala, potencializando o trabalho criativo e evoluindo o atendimento para um formato próximo ao de um concierge digital. A governança clara e o cuidado com a confiança do consumidor aparecem como premissas inegociáveis, sobretudo em segmentos onde reputação e exclusividade são centrais.

Louis Vuitton desenvolve o conceito “co-tech”, em que a IA é utilizada para agregar valor a quatro valores centrais do grupo: criatividade, excelência, empreendedorismo e impacto positivo. Fonte: Louis Vuitton.

O comércio físico como plataforma de experiência e crescimento 

Contrariando previsões de obsolescência em que a hiperconectividade dominaria os espaços físicos, nesta edição a NRF consolidou o papel da loja física como espaço estratégico de relacionamento, experiência e construção de marca. A tecnologia e o uso inteligente de dados permitem que esses ambientes se tornem mais eficientes, relevantes e conectados às jornadas digitais. Esse movimento ganhou profundidade nos painéis da Dick’s Sporting Goods e da Glossier, apresentadas como referências na transformação de suas lojas em vetores de crescimento em um cenário altamente digitalizado. Mais do que pontos de venda, os espaços físicos passam a operar como hubs de serviço, comunidade e experimentação, integrados a ecossistemas omnichannel. O valor da presença física reside na capacidade de gerar vínculo, confiança e memória de marca, aspectos difíceis de replicar exclusivamente no digital. De acordo com Alfredo Soares, cofundador do G4 Educação, os jovens das novas gerações estão cansados das experiências exclusivamente digitais, valorizando os ambientes físicos de convivência. Como implicações estratégicas para o varejo e o consumo, é possível destacar espaços como ativo estratégico e a integração entre experiência, dados e eficiência.

Nova flagship da Glossier no SoHo traduz a identidade da marca em uma experiência sensorial e sofisticada. Fonte: CasaCor.
 Fonte: CasaCor.
 Fonte: CasaCor.

Colaboração, propósito e ética como fundamentos competitivos

As discussões evidenciaram que o futuro do varejo será inevitavelmente colaborativo. Parcerias entre grandes players, plataformas abertas e sistemas interoperáveis ampliam a competitividade e aceleram a inovação. Em paralelo, valores como sustentabilidade, impacto social e ética no uso de dados permanecem como expectativas explícitas do consumidor e do mercado.

A palestra da REI reforçou que crescimento sustentável está diretamente ligado à coerência entre propósito, cultura organizacional e experiência entregue ao cliente. As novas gerações exigem integração plena entre físico e digital, demandam posicionamentos claros em temas sociais e respondem rapidamente a incoerências percebidas. Nesse cenário, é possível destacar a colaboração como vantagem competitiva estrutural, propósito integrado à operação e à cultura interna e consumo orientado por valores, não apenas por conveniência.

Colaboração entre Nike e Skims. Fonte: Nike.

A partir dos tópicos analisados acima, é possível destacar cinco fatores:

  • O varejo deixou a fase de experimentação e entrou em um ciclo de maturidade.
  • Tendências de consumo nascem em dinâmicas culturais e sociais antes de chegarem ao mercado.
  • A inteligência artificial ocupará a infraestrutura do negócio.
  • A jornada do consumidor é integrada e contextual, com lojas físicas reposicionadas como espaços estratégicos de relacionamento, serviço e construção de marca.
  • O crescimento sustentável depende de ecossistemas colaborativos.

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