Copenhagen Fashion Week: Sustentabilidade e urbano são o presente da moda.

Nos últimos anos, a Copenhagen Fashion Week consolidou-se como um dos eventos mais influentes do calendário internacional da moda. Criada em 2006, a partir da fusão de duas feiras têxteis – a Dansk Modeuge e a Dansk Herremodeuge, a CPHFW só alcançou projeção global mais de uma década depois. O impulso decisivo veio com a ascensão de nomes como Ganni e Cecilie Bahnsen, que se tornaram destaques da programação, e com a consolidação da sustentabilidade como pilar central e quase disruptivo quando comparado ao tradicional circuito Nova York–Londres–Milão–Paris. Além do rigoroso compromisso socioambiental que implementa um conjunto de quase 20 diretrizes que abrangem diversidade, durabilidade das peças e responsabilidade nas cadeias produtivas, a cidade consolidou-se como vitrine privilegiada para criadores de conteúdo. A combinação entre liberdade criativa e alta visibilidade transformou a Copenhagen Fashion Week em um espaço estratégico para projeção e reconhecimento no cenário global, onde é possível visualizar um retrato preciso e revelador do presente. Este ano, a programação reuniu 71 convidados internacionais, entre imprensa e compradores, e um total de 44 desfiles e apresentações.

A temporada evidenciou a disruptura da moda tradicional. A alfaiataria escandinava, reconhecida por sua precisão e minimalismo, ganhou nova personalidade ao adotar silhuetas autorais e inovadoras que desafiam o tradicionalismo do vestuário formal, combinando a rigidez das estruturas clássicas com a leveza dos tecidos fluidos. Nas passarelas, os designers exploraram esse contraste ao apresentar peças em que cortes precisos dialogavam com materiais delicados, como chiffon e seda, criando um jogo visual entre o rígido e o maleável. Os resultados foram composições que evidenciaram a técnica refinada da alfaiataria, em conjunto da liberdade criativa sem precedentes na moda escandinava contemporânea.

Paleta cromática: suavidade, contrastes e sinais dos tempos

A paleta cromática da temporada apresentou um equilíbrio entre tons neutros básicos, como branco, bege e cinza, e tonalidades pastéis suaves. Embora os tons pastéis continuem a dominar, com destaque especial para o amarelo manteiga e o azul bebê, houve espaço para contrastes marcantes, como o vermelho, que apareceu tanto em produções monocromáticas quanto em peças isoladas para criar impacto visual, como nas coleções de Nicklas Skovgaard e Gestuz. Ao longo da semana, também foi possível observar diversos tons de verde musgo aplicados em casacos utilitários, calças cargo e jaquetas bomber, podendo ser interpretado como um reflexo – ainda que implícito – do cenário global atual.

 Nicklas Skovgaard. Fonte: Elle.
   Gestuz. Fonte: Elle.
Forza. Font: Elle.
Herskind. Fonte: Elle.
Nicklas Svovgaard. Fonte: Vogue.  
 Rotate. Fonte: Vogue.
Birrot. Fonte: Launch Metrics.
Rotate: Fonte: Vogue.   
Gestuz. Fonte: Vogue.
Rotate. Fonte: Launch Metrics. 
Cmmn Swdn. Fonte: Launch Metrics.
Stel. Fonte: Launch Metrics.

O retorno do listrado e a estética romântica

A estampa chave da temporada foi o listrado, sendo explorado em diferentes variações – de linhas finas e delicadas a traços largos e marcantes, dispostos tanto na horizontal quanto na vertical, manifestando o diálogo entre o tradicional e o contemporâneo que a Copenhagen Fashion Week se propôs a entregar. Os tecidos – que muitas vezes revelava jogos de transparência, eram predominantemente fluidos e se misturavam com a estética romântica que permeou diversas coleções, com aplicações de flores, acabamentos em renda e bordados minuciosos, como nas coleções de Iamisigo, Bonnetje e Ópera Sport.

Bonnetje. Fonte: Elle.
 Cecilie Bahnsen. Fonte: Elle.     
 Rave Review. Fonte: Elle.

Oversized e sportwear de luxo: versatilidade urbana

O oversized manteve seu protagonismo e transitou do formal ao casual, com o streetwear atingindo novo patamar ao ser reinterpretado com materiais que receberam acabamentos manuais e artesanais. Embora essa influência traga peças com modelagens amplas, calças longas e saias ao comprimento do joelho, collants de corte alto e microshorts foram o grande destaque. Marcas como Alis, Rotate Birger, Herskind e Cmmn Swdn optaram por trazer referências do streetwear na parte supeior – com jaquetas grandes, moletons e casacos extra g, e shorts com modelagens justas e curtas na parte inferior. Além disso, a aproximação entre moda e esporte tem se intensificado ao longo dos anos – traduzida pelo uso de camisetas e bermudas esportivas – clara resposta à crescente prática de exercícios físicos ao ar livre, principalmente em grupos, devido à alta introspecção humana em consequência dos avanços tecnológicos digitais. As marcas Fine Chaos, Alis e Han Kjobenhavn revisitaram coletes de futebol, incorporando logotipos e slogans como elementos centrais, enquanto Gestuz explorou o universo automobilístico com jaqueta inspirada na Fórmula 1.

Kjobenhavn. Fonte: Launch Metrics.
Rotate. Fonte: Launch Metrics.  
Rotate. Fonte: Elle.
Kjobenhavn. Fonte: Launch Metrics. 
 Alis. Fonte: Launch Metrics.
Alis. Fonte: Launch Metrics.

Sustentabilidade e inovação marcam a temporada

A Copenhagen Fashion Week reforçou seu protagonismo global na pauta da sustentabilidade ao integrar, de forma estratégica, avanços tecnológicos e práticas circulares. Entre os destaques, esteve o uso da impressão 3D como recurso para reduzir o impacto ambiental da produção, ampliar a personalização das peças e expandir as possibilidades criativas. Um exemplo emblemático foi a colaboração entre Opéra Sport, Havaianas e Zellerfeld, que resultou na confecção de chinelos anatômicos e solados macios, produzidos com materiais reciclados. O evento também consolidou o design circular como um paradigma em ascensão, propondo que os ciclos de vida das peças sejam pensados de maneira integral, buscando unir estética, funcionalidade e compromisso socioambiental, estabelecendo novos padrões para uma indústria historicamente marcada pelo consumo acelerado. Outro eixo relevante foi a adoção de tecidos deadstock excedentes de materiais que, de outra forma, seriam descartados. Marcas como Anne Sofie Madsen e Freya Dalsjo se destacaram ao reaproveitar retalhos e resíduos da indústria têxtil, preservando a qualidade e a estética de luxo, atribuindo singularidade e história às peças.

Ópera Sport. Fonte: vogue.  
Anne Sofie Madsen. Fonte: Vogue.
 Freya Dalsjo. Fonte: Vogue. 

Embora a Copenhagen Fashion Week ainda não seja consolidada como referência global para tendências futuras como as outras semanas de moda, ela exerce papel significativo ao evidenciar comportamentos emergentes no presente. Com isso, fornece um panorama valioso para marcas de varejo, designers e profissionais das áreas criativas. Abaixo, sinalizamos alguns pontos importantes: 

  • O evento destacou um discurso estético que une utilidade e imaginação em uma fusão entre funcionalismo e expressão pessoal. 
  • A convergência entre elementos esportivos e peças femininas delicadas reflete uma plateia moderna que deseja versatilidade e surpreender nas suas escolhas, sem abrir mão da praticidade.
  • A CPHFW reforçou uma moda que prioriza funcionalidade, autenticidade, conforto, qualidade atemporal e colaboração com marcas pragmáticas
  • Valorização de narrativas baseadas na sustentabilidade, durabilidade, reparabilidade e legado. Os consumidores estão cada vez mais sensíveis à  isso.

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