Considerada a maior plataforma de arquitetura, design de interiores e paisagismo em diversos países da América Latina, a edição anual da CASACOR retomou sua agenda de exposições em meados de maio. Neste ano, as mostras terão como fio condutor o tema “Semear Sonhos”, que propõe uma reflexão profunda sobre o futuro da vida urbana a partir de três pilares fundamentais: sonhos coletivos, ecossistemas em cooperação e confluência de saberes. Segundo Lívia Pedreira, presidente do conselho curador da CASACOR, o conceito da edição foi idealizado para provocar os profissionais do setor a reavaliar suas práticas em meio a transformações significativas no panorama urbano global. “O mais recente Relatório das Cidades Mundiais, publicado pela ONU-Habitat, projeta que, até 2050, cerca de 68% da população mundial estará concentrada em áreas urbanas. Atualmente, essa média já atinge 56% da população global”. Diante desse cenário, a CASACOR propõe um olhar voltado para a natureza como aliada das cidades. “É necessário imaginar novas formas de habitar, sonhar de maneira coletiva e construir um pacto planetário pela sobrevivência da espécie humana”, destaca Lívia. Reforçando o compromisso da mostra com a sustentabilidade, a inovação e a responsabilidade social no campo do design, o tema não apenas sugere uma estética inspiradora, mas convida a uma ação concreta: repensar os modos de viver, criar espaços mais humanos e fomentar uma cultura de pertencimento, empatia e regeneração ambiental.
Iniciando a temporada, a edição da CASACOR Rio Grande do Sul retorna com força simbólica e estética ao ocupar uma área de 5.400 m² no térreo do antigo terminal do Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre. O edifício, inaugurado em 1953 e repleto de significados para a capital gaúcha, serviu de cenário para quarenta ambientes que materializam o tema mencionado anteriormente. A proposta, alinhada ao conceito nacional da mostra, propôs uma leitura contemporânea da cidade como ecossistema vivo, em que o ambiente construído e a natureza coexistem em harmonia. Os espaços apresentados reforçaram a importância de soluções arquitetônicas que respeitem a memória local e que, ao mesmo tempo, mirem para o futuro, tanto por meio da escolha de materiais naturais e atemporais, quanto pela aplicação de tecnologias voltadas à eficiência energética e à praticidade cotidiana, promovendo espaços que estimulam o bem-estar físico e emocional. Além disso, a atenção em aspectos como ventilação cruzada, acústica e estímulo à convivência humana reforçaram o compromisso com a qualidade de vida urbana. Este ano, a CASACOR RS também se abriu à dimensão emocional da arquitetura, com ambientes que abordaram de forma sensível a memória das enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Mais do que abrigos estéticos, essas criações se tornaram espaços de cura simbólica, onde a arquitetura encontra o afeto para ressignificar experiências traumáticas vividas coletivamente. Transformando material em metáfora, o uso de madeiras e tecidos naturais se uniram às formas orgânicas e a paleta de cores naturais a fim de reforçar conforto e tranquilidade, evocando um retorno ao essencial.


Em São Paulo, a mostra reuniu mais de 70 ambientes no Parque da Água Branca, oferecendo uma experiência completa de imersão nos universos da arquitetura, arte e sustentabilidade. Com forte integração da natureza, as propostas buscaram inspiração em seus ciclos e na inteligência dos ecossistemas para criar projetos que dialogassem com a sustentabilidade, a regeneração e o design afetivo. Em contraste com o urbano, o uso de materiais naturais – como madeira e pedra, e a presença marcante de plantas em áreas internas e externas, foram os elementos-chave. A valorização do sensorial e o foco em espaços multifuncionais e sustentáveis tornaram a tecnologia protagonista com soluções que despertavam os sentidos – difusores aromáticos, experiências personalizadas e luminárias que simulavam luzes naturais convergiram para a criação de espaços multissensoriais, oferecendo respiro ao cotidiano conturbado em meio à uma sociedade escapista. Em contraste com o minimalismo – que torna tudo mais acolhedor e restaurador, o maximalismo tem ganhado força pela necessidade humana de se cercar de objetos com significado e narrativas. E embora os tons terrosos estejam em alta, o evento também contou com estampas geométricas e cores vibrantes inspiradas na era retrô, como laranja queimado, Luminous Blue e Rosa Flame. Ademais, a edição paulista destacou o uso de tecnologias sustentáveis e práticas de gestão consciente de resíduos, demonstrando compromisso com a responsabilidade ambiental.


Na segunda edição da CASACOR Piauí, os profissionais convidados propuseram um olhar diferente e autoral sobre o tema geral, encontrando na arte e no artesanato local não apenas uma linguagem estética, mas uma forma poética de expressão e pertencimento na arquitetura nacional, em um diálogo entre tradição, identidade regional e design contemporâneo. Com criações que evocam a cultura artesanal piauiense e celebram as memórias ancestrais, os elementos produzidos à mão tornam-se protagonistas da narrativa. Cerâmicas artesanais, peças em barro, macramés, tapeçarias e pinturas autorais surgem como pontos focais na ambientação, enriquecendo os espaços com identidade e significado. A sustentabilidade também emergiu como eixo central da edição. Diversos ambientes exploraram soluções responsáveis, como o uso de materiais reciclados, sistemas construtivos inteligentes e a integração orgânica com a natureza.


Inspirada na essência sofisticada que define a mostra, a CASACOR Santa Catarina trouxe espaços onde a arquitetura, design e arte convergem em experiências estéticas sensoriais. Aliando-se ao tema geral, a proposta dessa temporada foi estabelecer um diálogo fluido entre conforto, identidade e sofisticação, incorporando elementos que promovem inegavelmente o bem-estar. Ao longo de diversos ambientes – desde áreas sociais à espaços íntimos e comerciais, a neutralidade aliada a cores terrosas e iluminação indireta cuidadosamente posicionada surge como base para essa atmosfera de acolhimento e conforto. Inspirado no bioma, as formas orgânicas – com linhas curvas e suaves foram protagonistas nos mobiliários, revestimentos e objetos decorativos, traduzindo de forma clara a linguagem de suavidade e elegância silenciosa que a mostra se propôs a entregar. O tratamento dos tetos também se destaca como ponto focal – painéis amadeirados, tecidos translúcidos e molduras de gesso com formas geométricas imprimiram dinamismo e profundidade ao espaço, contribuindo para a construção de uma atmosfera afetiva e simbólica.


O antigo convento Nossa Senhora das Mercês, fundado pelas irmãs Ursulinas em 1735 se tornou palco para mais de 40 ambientes nesta edição da CASACOR em Salvador, na Bahia. Com foco na sustentabilidade e na valorização de elementos históricos, o evento destacou projetos que combinam passado e futuro, utilizando materiais originais e intervenções que realçam a identidade de um dos edifícios mais antigos da cidade. Seguindo a proposta de um olhar voltado para a valorização da natureza e a conexão com o meio ambiente, a CASACOR Bahia enfatizou a sustentabilidade como um compromisso real – com reutilização de materiais, tapetes de plástico reciclado, gestão consciente de resíduos e valorização da economia circular. A valorização de elementos históricos foi o elemento-chave da temporada, destacando a importância de preservar a cultura local e a identidade dos espaços, com projetos que valorizem materiais originais e elementos arquitetônicos existentes. A combinação de estilos, cores e texturas também tiveram um papel importante na criação de ambientes acolhedores e personalizados, combinando o clássico e o contemporâneo, o rústico e o sofisticado.


Com base nas tendências comportamentais e comerciais analisadas, destacam-se pontos relevantes:
- A concepção da cidade como um ecossistema vivo – em que o ambiente construído e a natureza coexistem de forma harmoniosa, desponta como tendência emergente na arquitetura contemporânea.
- No design de interiores os espaços deixam de ser meramente estéticos para se tornarem ambientes simbólicos, onde os elementos carregam significado e propósito, promovendo áreas que estimulam o bem-estar físico e emocional.
- A arquitetura do futuro será marcada por projetos que integrem sustentabilidade, regeneração e design afetivo, promovendo uma abordagem mais sensível e consciente na criação de espaços.
- Estabelecer um diálogo fluido entre conforto, identidade e sofisticação, incorporando elementos que promovem inegavelmente o bem-estar será essencial na criação de um projeto.